sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Foz



Penso aqui enquanto leio poesia. Tô sentindo aqui uma tal agonia. Revejo coisas, memórias daquele dia repleto de rostos, passos e algazarraria. Repetidamente, você passa por mim. Um passa e some sem fim. Você me dá um esbarrão e subitamente te acho na multidão. E te perco então. É esse o movimento da gente. Te comento com alguém, você existe. Te lembro comigo, você persiste. Quero é abandonar isso de te achar. De ficar achando e perdendo até cansar. Se te sussurro, você caminha forte e presente. Se pisco, já some, ainda presente. Quero te pedir em ultimato que fique. Ou vá, sem hesitar. Vá! Pois gosto de tu, meu xará. Fico imaginando se me reconhece tão bem também, ou passa por aí sem me notar? É provável que não me veja, só me esbarre. Porque faço barulho não, sou remendo e eco da multidão.

Esse último ato imita o primeiro: vem meu olhar te buscar faceiro e você me aceita num talvez, então te despisto com voz, tatuagem e timidez. O ensejo pra beijo já se fez. A boca esquece as palavras e se alonga, tomando o idioma da língua já tonta para dizer sobre eu e você enquanto ocasião. Passo a descobrir teu corpo com as mãos. A inspirar teus cheiros, pelos e apelos pelos meus pelos, cabelos e cheiros.

A brisa salgada desvenda nossas semelhanças e oculta as dessemelhanças. Sua mente finalmente desabrocha, tal dama da noite que escolhe a hora. Percebo que fui vítima de apaixonamento precoce. Nem o horizonte mais me acolhe, já que me estendi para além do sol posto, pensando ser suficiente esse teu gosto. Mas não é. E nem se quer ser.

Fico quieto em casa até esbarrar de novo contigo, pensando em como te inverter para amigo, mas o mar que aqui está aumenta a gritaria do coração. E é cada encontrão… Quanta distração! As ondas quebram, batem com força. Sou pedra desfazendo à toa. Viro um monte de pedrinha miúda que uma hora chega na areia difusa. Pode alguém recolher e guardar ou de volta na água me arremessar. Costumo voltar, trazido pelo teu silêncio, temendo ir quebrando até me tornar algum contrassenso.

Agora, nesse mesmo hoje mareado, quando te vejo passar de longe, despreocupado, não mais anseio roçar meu ombro no teu, desejo apenas que teu olhar encontre o meu, por um tempo assim ligeiro, e que depois nos percamos no cenário inteiro.

É a despedida então que se avizinha. Caminho refazendo outra rota, onde deixo tua imagem lembrada ir embora para que o sem você possa vir a ser. Carece paz na cabeça e no peito porque essa agitação do mar bate é de jeito… Despedaça, desintegra, quebra toda vida… vai pedrinha e volta partícula indefinida. Mas ó que areiar até que faz bem. Já posso me espalhar até desencontrar. Faço que rio, sorrio pro sol e agradeço ser rio. É foz de domingo nessa sexta dezessete. Agradeço às palavras pela fluidez desordeira. Penso aqui no quanto esvazio a poesia.

Teste de elenco falso: de Aquaman para Speed Racer


video

"De Aquaman pra Speed Racer:
te escrevo para dizer que eu não morri, que eu só voltei pra casa. aqui nessa cidade subaquática, tudo pra mim faz mais sentido. eu não preciso me esconder no mar pra me sentir em paz, nem preciso mergulhar pra me sentir livre.
e sempre que me perguntam como era aí, do lado de fora
eu conto de um menino que acha que não tem coragem mas que é o cabra mais corajoso que eu já vi: magricela quando todo mundo é forte, voz fina quando todo mundo é macho, pés pequenos quando todo mundo é firme.
conto do menino e digo que ele é meu irmão que ele sou eu no dia que eu tiver coragem de aceitar o quanto que eu tenho medo das coisas. porque tem dois tipos de medo e de coragem, speed.
o meu é de quem finge que nada é perigoso.
o seu, é de quem sabe que tudo é perigoso nesse mar imenso."

(retirado do filme "Praia do futuro")


quarta-feira, 2 de março de 2016

Coisas ditas dentro de um abraço


Abriu a porta do quarto devagar, sem fazer barulho, e não acendeu as luzes. Pegou o menor no colo, "shhhh... shhhhh..." Ele bocejou, mastigou saliva e deitou a cabecinha no ombro dela. O maior já estava sentado na cama, mochila nas costas e olhos arregalados de medo, brilhando iguais os da coruja que observa a noite. Passaram pelo homem caído no chão, o maior pulou os pés do pai e pensou em despular para não dar azar, mas foi um pensamento rápido que logo sumiu. Ela suspirou de alívio quando inspirou o ar frio da madrugada. As feridas no rosto arderam, ela lambeu o sangue nos lábios. Caminhou rápido, passos firmes, olhos atentos, arrastando o maior pela mão, trazendo também uma mochila pesada nas costas. O maior começou a chorar, sem saber porquê, sem fazer som algum. Pararam no ponto e ela começou a rezar baixinho. Deram sorte: logo apareceu um ônibus escrito 'rodoviária' virando a esquina lentamente. Fez sinal, parou, "Boa noite! O senhor pode abrir lá atrás e depois eu giro a roleta?" O motorista apenas consentiu com a cabeça e abriu a porta traseira. O menor bocejou novamente e virou a cabeça, para deitar com a outra face. A respiração da mãe já era densa, cansada, funda. Girou a roleta com ferocidade desnecessária. "Eita, porra!", o motorista gritou e engatou a marcha. "Quer quebrar?" Ela o xingou baixo, sem voz, rouca. Chamou o maior para sentar ao seu lado. Ajeitou-o no canto, fechou a janela, colocou a mochila no colo dele, dobrando os braços do menino ao redor dela. Pôs o menor do lado do irmão, sentou-se na ponta, abriu a mochila no colo, tirou um cobertor, fechou, jogou o pano xadrez em cima dos meninos - olhar sério, lábios contraídos - pressionou nos cantos como se os embrulhasse. Deixou a mochila no chão entre as pernas. O menor acordou, coçou os olhos, quis iniciar um choro. "Shhh... Shhhh..." Puxou-o para seu colo, esticou o braço ao redor do maior, trazendo-o para perto. Este iniciou novo choro silencioso e escondeu o rosto no peito da mãe. Ela: olhar sério, lábios contraídos. "Shhh... Shhh... Vai ficar tudo bem!" E fechou os olhos. 

Estava deitada no sofá, incomodada com a posição, vez ou outra tentava se ajeitar melhor. Ele estava na cozinha, sovando uma massa de pizza. Na televisão, passava "Esqueceram de mim", lá fora era um dezembro quente, lá dentro o ventilador girava fazendo muito barulho, enguiçando algumas vezes. O bebê chutava vez ou outra dentro da barriga. Ela alisava, falava baixinho com o menino, pedindo calma. 37 semanas de gestação. O pai colocou um pano de prato em cima da bacia com a massa, lavou as mãos na pia e foi para sala. Sentou-se no chão, de frente para o ventilador. "Agora é só esperar descansar" Pegou a mão da esposa, deu um beijo: "Como você tá se sentindo, meu amor?" Ela só suspirou, fazendo careta, e mudou de posição mais uma vez. "Ah, ele não para!" O marido riu, depois riu do filme. O celular tocou, saiu para atender. O bebê mexeu mais uma vez. Ela esticou a cabeça, tentando ouvir a conversa, mas ele fechou a porta do quarto. A mulher então levantou, foi beber água. Devagar, pressionando os lábios, alisando a barriga, sentindo quase como se afundar no chão de tão pesada. Ele abriu a porta bruscamente, assustando-a. "Quem era?" Ele olhou de cara feia e não respondeu. A mulher pousou o copo na pia e foi espiar a massa. Ele correu e lhe deu um tapa na mão. "Não pode mexer!" O bebê bateu forte dentro da barriga. Ela fechou os olhos e se escorou na geladeira. O marido a sustentou, envolvendo os braços ao seu redor. "Ei, ei... Que foi? Que tá sentindo?" Por um momento, ela achou que fosse desmaiar, depois pousou a cabeça no ombro dele. A mulher tentou responder as perguntas do marido, tentou pedir que só abraçasse até passar a dor, que quando ele a abraçava, o bebê se acalmava. Mas ele queria olhá-la, queria respostas, queria se desvincilhar. Segurou forte na camisa dele e vomitou instintivamente. O líquido amarelo escorreu pelas costas dele. Ela amoleceu os braços, deixando de fazer força e ele disse: "puta que pariu, mulher!" e desfez o abraço.

Os dois brincavam na calçada. Encaixavam uma peça colorida em cima da outra. O nariz do menor escorria, o maior assoava no short. A mãe falava alto, conversando com a vizinha de quintal enquanto torcia a roupa molhada. Moravam nos fundos, depois de um velho portão de ferro, e um corredor abarrotado de plantas mal cuidadas de diversas espécies. O portão estava entreaberto, fazia sol, mas não estava quente, era setembro. Uma peça depois da outra, os meninos montavam: o maior tirava as que o irmão colocava errado, tentava ensinar, e escorria o nariz. O menor lambia o lábio superior e atentava um pardal bicando o chão de terra. Parecia esperar um momento oportuno, quando o irmão estivesse distraído. "Me ajuda aqui, ô seu menino!" A vizinha pediu ao maior auxílio com a bacia que escorregava da mão. A mãe havia entrado para buscar mais roupas. O menor então saiu correndo atrás do pardal e deu de cara nas pernas de uma mulher que já o notava de longe. "Ah, que graça!" Ela o pegou no colo e encaixou seu rosto contra o peito, ainda sorrindo. "Quer ser meu?" Olhou o menininho que chutava e tentava sair do abraço. "Você quer ser meu?" O maior já gritava pela mãe, enquanto  vizinha voltava tropeçando, deixando cair bacia, roupa e todo resto. A mãe, que surgiu quase que magicamente do nada, puxou o menino e deu um tabefe desencontrado na mulher, atingindo-a nas costas. Elas mal se olharam. "Dá ele pra mim!", a mulher repetia. "Some daqui, sua piranha!", gritava a vizinha. A mãe apenas abraçava o filho, lábios contraídos, olhar sério. "Dá ele pra mim! Ele já é quase meu mesmo. Dá ele pra mim!", a mulher sorria ironicamente. O maior, agarrado na barra da saia da mãe. Ela o puxou e entrou em casa, empurrando o portão. A vizinha continuou xingando do lado de fora e a outra foi embora ainda sorrindo. Os brinquedos ficaram na calçada, encaixados de uma forma aleatória que ora podia ser um edifício, ora um bicho.

Ela sabia que ele estaria lá. A irmã dele e, não por acaso, sua melhor amiga, havia confirmado: oito da noite, na porta do clube. Ficou esperando encostada numa Fiat, olhando o relógio de minuto em minuto. Escolheu um vestido, não muito colado no corpo, sem estampas, com listras claras na barra. Sentia-se deslocada, destacada do resto da meninas, que usavam shorts jeans e top. Não gostava de ir ao clube nos sábados, ficava sempre muito cheio. Quinze pras nove. Já estava quase desistindo quando ele chegou de moto, junto com outros dois rapazes, cada qual em sua moto. Ela primeiro sorriu, depois quis entrar debaixo da terra, pois notou uma menina de cabelos loiros, soltos até os quadris, descendo da garupa dele. Abaixou a cabeça e tentou sair pelo canto, quando o ouviu chamar seu nome. Fingiu um sorriso, cumprimentou com um beijo no rosto e entrou, junto dele e da outra menina. Ficaram no bar, ele conversando amenidades com os amigos e tomando cerveja, enquanto ela assitia a outra menina rebolar com as amigas, claramente destinando a dança para ele. O incômodo só crescia dentro dela: ajeitava o vestido, mexia no cabelo, coçava os olhos, temendo iniciar um choro a qualquer momento. Decidiu ir embora e sussurrou no ouvido dele: "Vou embora, ok?" Ele, que sorria, deixou de sorrir. Deslizou seu braço pela cintura da moça, puxou-a para perto e falou lentamente no ouvido dela: "Fica!". Olhou-a nos olhos: "Vamos dançar?" Ela sentiu o coração acelerar e todo seu corpo ficou quente de repente. Seguiram para a pista e, em determinado momento, a música acalmou, e então dançaram colados, face com face. Ele a conduzia com delicadeza, ela mantinha os olhos fechados, com lábios levemente afastados, descontraídos, desenhando um sorriso sutil. E o que era dança, virou abraço. Pararam os pés. Ele acolheu o corpo dela, que sentiu arrepiar da cabeça aos pés. "Te adoro, sabia?" Ela sorriu e uma lágrima escorreu - era sensível. O abraço continuou por algum tempo até voltar a ser dança.

Depois de muito custo, pegou no sono. Dez minutos depois, ele chegou, escancarou a porta e a claridade a acordou. Ela coçou os olhos, voltando a cabeça para o travesseiro, preocupada. Ele, bêbado, cambaleou e caiu sentado na cama. A calça suja, molhada de urina, mais o fedor de cachaça com cigarro e perfume doce. Ela tampou o nariz, a aflição crescendo mais e mais. O homem tirou o cinto, jogou no chão. Falava coisas aleatórias, como se conversasse com alguém. Abriu a braguilha, arriando a calça jeans. Apalpou a cama à procura do corpo dela debaixo das cobertas. Ela se encolheu e fechou os olhos com força. Finalmente ele alcançou uma perna, riu, mas ela puxou de volta a perna, resmungando um não em forma de tosse. Ele então se jogou na cama, apoiando os joelhos, e com as duas mãos puxou as pernas dela com força, esticando-as no colchão. Ela reclamou baixo, tão baixo, com medo que ele ouvisse. Ele tirou as cobertas e começou a acariciar as pernas dela, depois apalpou os seios por baixo na camisola. "Não..." Ela falou. E repetiu. Um tom mais alto. Dois tons mais altos. Ele ignorou, enfiando três dedos na vagina dela. Ela gritou: "NÃO!" Ele tirou a mão no susto e finalmente olhou-a nos olhos. Os olhos dela arregalados, cheios de uma raiva acumulada; os dele, indecifráveis, perdidos e, de repente, ameaçadores. Enfiou novamente os dedos na vagina dela, mais agressivo dessa vez. Ela tentou lutar. Ele empurrou suas mãos com tapas firmes. Lutaram um tempo, até ele lhe dar um tapa no rosto e pressioná-lo com força contra o travesseiro, deixando-a sem ar. "Para, mulher!" Ela parou, deixou os braços caírem ao lado do corpo, esticou as pernas, quase como se o corpo fosse se ajeitando para morte. Ele tirou o pênis duro para fora e enfiou na vagina dela. Uma, duas, três vezes, indo e voltando. Ela olhava o nada além da parede, lábios contraídos, olhar sério. Depois de alguns minutos, ele ejaculou e caiu para o lado. Ela permaneceu parada olhando o nada além do teto, sentindo escorrer o líquido quente em seu corpo. E passado pouco tempo, ele já roncava. A mulher abaixou a camisola, puxou a coberta e abraçou as pernas, ficando na posição fetal. Pôs-se a chorar baixo para não acordá-lo. Abraçou as pernas com mais força, conforme a dor ia se tornando insuportável e os soluços mais altos. Sentia que ia desmaiar, quando ouviu a voz de sua mãe, dizer nitidamente dentro de sua cabeça: "Isso também passa, minha filha!" Fechou os olhos e adormeceu. Duas horas depois acordou, tomou um banho frio, apagou todas as luzes que ele deixou acesa e tomou um café velho sem açúcar. Olhou os meninos dormindo, deu um beijo na testa de cada e deitou-se no chão entre os dois para tirar um cochilo. Meia hora depois, acordou assustada e correu de volta para cama.

Já era hora. "Escovaram os dentes?" Responderam que sim com a cabeça. "Deixa eu ver?" Fizeram um "A", abrindo bem a boca. "Tem que esfregar bem lá atrás, senão fica podre e cai, viu?" Puxou a perna do sofá e abriu-o, revelando a cama. Esticou o lençol lilás recém lavado, com cheiro de amaciante, e depois pegou três travesseiros, posicionando-os um ao lado do outro. O menor logo pulou, escolhendo o canto da parede. O maior intentou reclamar, e empurrá-lo, mas olhou a mãe e foi para o outro canto. Ela foi até a cozinha, verificou o gás, apertou a torneira, encheu um copo com água, pegou um pedaço de papel e pôs em cima do copo. Sentou-se no pé da cama, colocou o copo no chão e verificou o celular. Deitou-se entre os dois meninos. Deu um beijo na testa de cada e desejou boa noite. O maior ficou encarando a parede, contando as rachaduras e tentando adivinhar todas as variações de cores nas áreas mofadas. Tinha um cheiro ruim na casa, por mais que limpassem. A mãe olhou para o teto, fez cálculos e planejou o dia seguinte. O menor se mexia para cá e para lá, puxando a coberta, falando, gesticulando. Ela adormeceu. O maior ficou acordado. No meio da noite, a mulher sentiu algo líquido na perna: o menor havia urinado. Ela sorriu sem perceber. E, percebendo que ria, começou a chorar de um jeito como se fosse sufocar. Tapou a boca, pois os soluços já se queriam cada vez mais altos. O maior, que não dormia, logo se virou para encarar a mãe. Ela tentou fingir que dormia, mas ele a encarou dentro dos olhos. Ela então o puxou para perto, contra o peito e continuou o choro. Ele notou suas batidas do coração, rápidas, como se o órgão fosse sair peito afora. O menino esticou os braços e a abraçou de volta. Ela tocou delicadamente sua cabeça, sentindo como se o filho recolhesse pedaços seus e os juntasse firme entre seus braços. "Lembro de quando você cabia aqui dentro de mim e não queria mais caber" Ele fechou os olhos. "Você só queria não caber mais." O coração dela foi mudando o ritmo, seguindo a respiração quieta do filho. Em determinado momento, dormiam os três.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Das duas vezes que dancei Inaraí


Em 1997, eu tinha seis para sete anos, era domingo de verão, desses de muito sol, e meu pai fez churrasco. Ele e mamãe bebiam cerveja e riam, às vezes vinha uma brisa boa, e eu tomava banho de mangueira de cueca - uma cuequinha do batman. Esse momento fotografado na memória foi um dos mais felizes da minha infância. No rádio tocava Djavan. O cd terminou e meu pai falou "ô Regina, deixa eu colocar meu pagodinho agora." Ele a segurou pela cintura e raspou a barba no seu pescoço. Ela tremeu o corpo e riu, pedindo que parasse, sem muita verdade. Eu ri e joguei água neles. Papai veio  então correndo na minha direção, rosnando como um monstro, suas mãos imitando garras. Gritei com minha vozinha esganiçada e saí correndo, saltando e rindo. Ele me alcançou e começou a fazer cócegas, o que me fez gargalhar. "Para, pai!" pedi, sem muita verdade. "Deixa eu ver esse piruzinho" Ele arriou minha cueca e começou a mexer no meu pênis pequeno e gelado. "Para pai!", falei com mais verdade e muita vergonha. Ele ria bobamente: "Você limpa esse negócio direito? Olha lá, hein!" A vergonha crescia mais e mais, já virando medo, e eu só queria me desvincilhar e esconder aquilo. "Para pai!". Minha mãe ria, pedia para ele me largar e ria de novo. Eu, que já não ria, lhe dei uma cotovelada forte, saí correndo e puxei a cueca para cima. Papai tossiu uma risada "Bate forte o moleque. Vai aonde?" Eu não queria olhá-lo, estava com vergonha, só queria me esconder em algum lugar. "Desculpa, meu filho. Papai estava só brincando." Ele me deu um beijo na testa. "Vou fazer xixi", lembro ter dito. "Mijar! Homem fala mijar", e riu. Mamãe pegou outra cerveja e me deu um tapinha na bunda. 

Já trancado no banheiro, sentei e fiz xixi. O alívio era bom, mas existia uma vontade terrível de chorar. Subi num banquinho para me olhar no espelho. Abaixei a cueca e olhei meu pênis no reflexo. Puxei o prepúcio, estiquei para trás, para frente, apalpei os dois ovinhos. O saco estava murcho, úmido, enrugado. Dei um peteleco em cada ovo e um tapa no piru. Tinha nojo daquilo. Puxei a cueca com força e esfiei a parte de trás para dentro, como um biquíni fio dental. Me olhei no espelho e sorri. Parecia uma bailarina do Gugu. Quis chorar de novo e lavei as mãos pensando "Por que eu, Deus? Por quê? Não quero." Quando saí do banheiro, estava tocando Inaraí, do Katinguelê, no rádio. Era uma das minhas músicas preferidas na época. Peguei um espetinho de coração. Meu pai dançava colado com minha mãe. Pairava a alegria novamente. Comecei a me remexer, balançando os quadris. Era assim que se sambava, rebolando - eu sabia. Queria dançar bonito, como faziam na tv. Fiquei nas pontas dos pés e caprichei. Fechei os olhos e por um momento me vi como queria ser. Foi mágico! Foi mágico até meu pai me pegar pelo braço bruscamente. Me assustei. Ele apertou e me olhou dentro dos olhos - nunca vou esquecer aquele olhar: "Que porra é essa? Tá parecendo uma bichinha!" Ele apertou mais forte. Meus olhos logo encheram d'água. "Dança que nem homem, caralho!" Ele me balançou e abri a boca à chorar. Ele já ia me bater ordenando que engolisse o choro quando minha mãe interveio e nos separou. "Deixa o menino" Ela me abraçou e escondi a cabeça no colo dela. Cheiro de carne misturado com Floratta in blue. Papai nos separou, mandou que entrar e ficar de castigo no sofá. Ele e mamãe discutiram alto. Acabou a música. Ela foi lavara a louça, ele veio beber cerveja do meu lado e colocou no Faustão, onde as bailarinas sambavam como eu. "Vai pro seu quarto! Nada de choro!" Apesar disso, chorei baixinho o resto do dia.

***

Semana passada resolvi ir à gafieira com duas amigas. Elas ligaram chamando, pensei "por que não?" Fazia tempo que não saía, ainda tinha certo receio, mas já me sentia melhor, mais bonita, vivaz. Comecei a fazer planos. Liguei pra Vânia, marquei de fazer pôr extensões no cabelo. Liguei o rádio, lavei roupa, cantei e passei a vassoura na casa sambando. Vânia chegou, disse que eu estava linda, mais magra, trocamos figurinhas sobre maquiagem. Ela trouxe o aplique preto liso e foi falando sobre a vida das outras meninas, que fulana traiu ciclano, que a outra fez barraco, que viu mensagem, que não sei quem saiu na porrada, e seguiu tagarelando. Eu nem ouvia, trocava mensagens com as meninas via whatsapp. Falávamos de homens, de roupa, de sapato, da melhor sombra... "Só sei que preciso dançar até o corpo dizer chega". Vânia terminou, fui me arrumar. Tubinho preto curto, sandália gladiadora, a única bolsa de mão que tinha com documento, cinquenta reais, cartão de crédito, camisinha, um isqueiro vermelho, um pacote de malboro, bala de menta e batom. No banheiro, passei a base na pele oleosa, marcada por cravos e a cicatriz no supercílio. Depois o lápis, a sombra, um pouco de blush e o batom rosa claro. No fim, espirrei o Floratta in blue de cada lado do pescoço e nos pulsos, esfregando. Já ia saindo, fiz um xixi rápido e ao me olhar no espelho, parei e sorri. Passei as mãos nos cabelos, depois ajeitei os seios, deslizei pelo vestido, desenhando a cintura. Era uma mulher, era eu, era linda. Os olhos encheram d'água. Joguei um beijo para o espelho, apaguei a luz e saí. 

Já havia ido a gafieira uma vez, há uns dois anos atrás. Estava muito diferente: reformaram, trocaram o piso, tinha uma espécie de buffet self-service agora. O público, entretanto, continuava o mesmo: muitas meninas trans maravilhosas sambando no meio do salão com os dançarinos da casa - senhores calados bastante educados - e um bando de homens espalhados pelos cantos do salão, escondidos no breu. Eu e as meninas ficamos na mesa, bebericando cerveja e mastigando alguns amendoins. Elas comentavam os caras dali, mas eu estava incomodada. Começava a me sentir um pouco sufocada e a apreensão foi crescendo dentro de mim. A sensação era algo como ser um animal, uma presa reparando o predador se aproximar sorrateiramente sem poder se mover. Comecei a me abanar em busca e ar. "Que foi, Nina?" Sorri, balançando a cabeça negativamente. "Tá se sentindo mal?" Disse que não era nada. "Tá tendo um ataque". Não era um ataque; talvez um pré-ataque de pânico. "Vou fumar ali na varanda. Preciso de ar", avisei. Elas me olharam com preocupação e, quando fui saindo, notei dois rapazes jovens se aproximarem da nossa mesa. Sorri sem muita vontade. Fui para a varanda e logo senti a brisa quente da noite. Era uma dessas noites de verão: ruas cheias de gente, muitas risadas, muitas intenções, desejos e expectativas - a noite de sábado sempre cheia de promessas. Não é à toa que domingos costumam ser deprimentes. Acendi o cigarro, traguei, soltei a fumaça pelo nariz, ardeu. Vi que ele se aproximou. Já havia notado seu olhar do canto perto do palco. Um homem em seus quarenta e poucos anos, alto, negro, forte, cabeça raspada, barba rente, bem feita, camisa azul marinho com as mangas dobradas, deixando à mostra um grande relógio dourado, jeans clássico e sapatos pretos. Ele pigarreou, achei cafona. Puxou um assunto qualquer, continuei fumando, olhando-o de vez em quando para reafirmar o pouco interesse. Ele já ia desistindo, meu cigarro já ia acabando, quando o grupo de pagode começou a tocar Inaraí no salão. Abri um longo sorriso. Ele notou. Logo esticou a mão, fazendo o papel do perfeito cavalheiro, e me convidou para dançar. Apaguei o cigarro e peguei a mão dele. 

O sujeito queria dançar colado, me agarrou com vontade pela cintura. Dançava bem, me conduzia com eficácia. "Qual seu nome?", perguntou. "Nina". Temi estar com bafo de cigarro. "Então Nina, o que você faz além de encantar todos à sua volta?" Ri alto: "Eu danço". Ele sorriu. "Isso já se nota. Você dança muito bem. Sinto que quase não preciso me esforçar." Ri novamente: "De fato, sou mestre em desviar os pés para evitar pisões." Ele riu e mordiscou minha orelha. Desviei. Nos afastamos e sambei pra ele, rebolando um pouco mais do que a música pedia. Ele me puxou com força e sarrou o pênis ereto em mim. Tentei me afastar sem muita verdade. Ele me segurou firme na cintura. Gostei da pegada dele. Estava gostando do jogo. Ele aproximou o rosto do meu e sussurrou: "Teu cheiro me enlouquece, sabia?" Ri timidamente fazendo o perfeito papel da dama que acolhe o elogio. Notei as pessoas dançando, a felicidade das minhas amigas, seus olhares incentivadores. Então sorri e fechei os olhos, deixando a música entrar em mim. Já não ouvia as bobagens que ele dizia, seu pênis esfregado em mim, sua mão apertando minha bunda. Deixei que fosse apenas eu e a música. Ouvi dizer que ser livre é viver sem medo. Era então completamente livre naquele momento. Ele repetiu: "Ei Nina!" Acordei. "Hã, oi?" Perguntou: "Vamos pra um motel? Eu tô de carro." Ri ironicamente. "Quero te foder a noite toda. Aposto que seu cuzinho é apertadinho." Ri novamente e me desvincilhei com uma cotovelada porque ele não quis me soltar amigavelmente: "Me larga, porra!" Me olhou com cara de cachorro pidão. Sorri, ele sorriu. Sambei. Inara. Rebolei. Inara. Desci até o chão. Inara. Mostrei minha bunda empinada. Inaraí. Ele só faltava babar. Peguei sua mão, contei os dedos, parei no anelar, enfiei na boca, lambi e mordi a aliança. "Eu não trepo com homem casado, seu merda!" Soltei sua mão e voltei para mesa, deixando-o no meio do salão com uma expressão confusa no rosto. Pedi uma cerveja, tomei um gole e pensei na velha cueca do batman.